Jacaré


“É jacaré!”

Mal pude acreditar quando virei a cabeça em direção ao barulho na margem do rio . O Pedro, mateiro experiente, estava certo. Era mesmo um jacaré. Ele caçava na água clarinha a menos de dois metros de nós. Caia a noite , eu acabara de sair do rio e, já sem a roupa de mergulho, tremia de frio vestido só com o calção molhado.

De onde teria vindo? Como não o tinha visto nas três horas que passei na água? Por alguns minutos, fiquei sem ação, apenas conjeturando e olhando incrédulo para o bicho ali paradão, de boca aberta. Dava para ver o corpo inteiro, a cauda apoiada no fundo, pernas abertas, os olhos semi-submersos. Os peixes, até então tranqüilos, pressentiram  a chegada sorrateira do predador e passaram a nadar freneticamente.

Havia muito tempo eu esperava uma chance para fotografar jacarés debaixo d’água cristalina dos rios da Bodoquena, no Mato Grosso do Sul. Mas, até aquele momento, jamais tinha visto um deles tão de perto. Era uma chance única, a cena não duraria muito e dificilmente se repetiria. Os jacarés são raros na região.

Passado o susto inicial, comecei a reagir. A tênue luz do crepúsculo acabaria logo.  Apressado, peguei a caixa estanque, abri a tampa traseira e troquei o filme da Nikon F90x com o cuidado possível para não molhá-lo, pois tudo ao redor, estava úmido.  Depois, só tive tempo de colocar a máscara de mergulho antes de entrar devagarzinho na água, rastejando de barriga no chão, só de calção. Cena cômica.

Por sorte, o jacaré continuou pescando tranquilamente, enquanto eu me aproximava lentamente com os dois pés “fincados” na margem e o resto do corpo boiando em direção ao bicho. Esticando os braços, consegui colocar a lente – uma grande angular de 20 mm -, a uma distância ideal para registrar tudo em segurança, sem chegar perto demais a ponto de assustar o animal ou me arriscar a levar uma mordida. Numa situação assim, é imprescindível conhecer bem o comportamento da espécie. Disso depende a avaliação correta da distância de segurança. O medo, freio natural, também ajuda.

Gastei o rolo de filme em 15 minutos. Foi o tempo para a noite chegar de vez. A minha busca, como sempre, era por contar a história completa: o ímpeto do predador, os peixes assustados, o ambiente sombrio do fundo do rio. A fotografia acima, editada entre as 36 outras imagens , é a que guarda a maior relação com esta minha interpretação do encontro inesperado com o Jacaré.

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Comentários

41 comentários sobre “Jacaré

    • Linda descrição do jacaré! Olhando de relance, parece da família do cavalo marinho! Fiquei encantada com o seu conto… vc é um lucky boy sempre ao lado da Natureza!

  1. SÃŽnia Lopes – LucianoAdorei ler essa história e como é bom ler seus textos. Você tem o dom para tirar belas fotos e o dom para escrever de forma agradável e envolvente.Continue assim.Abraços e parabénsSÃŽnia

  2. Miguel Mello – Fala Luciano,lembra de mim, fizemos o curso em Pirenópolis! Essa foto ja conhecia só a história para mim que é nova e hilariante, cena que eu não gostaria de ver é você de sunga e barriga no chão. Olha só. Fiz um trabalho maneiro com biologos sobre o tatu bola (tranquinha), no oeste da Bahia, que ficou muito maneiro. Gostaria de te mostrar. Você é o MESTRE e te agradeço muito tudo o que voc^pode nos passar naquele curso. Valeu! Um abraço do seu fã e amigo! Passando em Brasília da um alo!!

  3. jose selingardi – Oi Luciano, imagino a adrenalina!!!Como deve ser incrivel conseguir manter o equilibrio numa hora dessa, uma mistura de medo e a sensação da grande oportunidade de belas fotos. Acho que essa é a mistura ideal para o resultado de um trabalho que passe a emoção do momento.Um abraço e parabénsJosé

  4. fabio – Caro Lú, você se supera a cada foto! continue a nos ensinar a apreciar e cuidar do nosso maior patrimônio o patrimônio natural! através do seu talento podemos observar a beleza e facínios que esses momentos trazem a nos. Muito obrigado e parabéns pelo seu trabalho

  5. Isabela de Lima Santos – Que interessante e de fato inusitada essa história, Candisani! Grande momento Revela que fotografia, com sensibilidade e conhecimento, como é o seu caso, é efetivamente uma forma muito eficiente de contar histórias…Se eu estivesse lá, entretanto, creio que meu ‘instinto jornalístico’ afundaria e rumaria em fuga acompanhando o sentido dos cardumes! Parabéns!

  6. Iuri Martins – Nossa. Um jacaré… Nunca me imaginei no fundo de um rio com um jacaré espreitando em busca de comida. Algo como ansiedade, medo, adrenalina, silêncio. Uma mistura de pressa e calma, bem típico de situações submersas. E com várias fotos como essa daí, acredito na satisfação da sua profissão. Parabéns.

  7. Mauro Lima – Maravilhosa fotografia! Publiquei-a nos calendários e agenda Habitat 2008, no mês de maio, junto com outra submarina, de um dourado, também em Bodoquena.São fotos inusitadas assim que mostram a complexidade da vida dos animais selvagens em natureza.Só fotógrafos do naipe do Luciano Candisani conseguem educar e emocionar com esse alto grau de qualidade.Qual a próxima viagem Luciano?

  8. Charles Young – Grande Luciano, tem dois elementos que, para mim, fazem essa foto se destacar: primeiro é o contraste de “texturas” – a pele do jacaré, os galhos, o reflexo na água e os peixes; e as cores suaves que, junto com as texturas, fazem essa foto ter ares de pintura. Fantástica! Agora só falta uma foto assim de um jacaré-açu! Grande abraço, Charles

  9. Renato Suelotto – 20 mm ??!!!! Então estava bem no limite para não encomodar o bichinho 🙂 Deve ter sido uma emoção muito grande ficar tão perto, e dentro do habitat dele…. Mais uma vez, parabéns por seu belo trabalho

  10. Attila – Torna-se muito prazeroso ler uma boa matéria observando uma bela imagem. Parabéns pela linda foto, são poucos que conseguem ter a paciência e a habilidade de capturar uma imagem e saber contar uma agradável historia sobre ela. Attila

  11. Ligia – Parabéns Luciano. É bom saber que nossos amigos estão fazendo sucesso pelo mundo e mais ainda que este sucesso é fruto do seu esforço e dedicação. Um beijo grande, saudade,Lili

  12. Daiane – Caramba.. até parece de mentira.. Incrível como estes bichos conseguem ser discretos ao ponto de chegarem pertinho das presas sem serem percebidos né? é uma pena que suas atualizações não sejam diárias, pois sempre fico na curiosidade para próxima! 🙂

  13. Bebel – tio Lu eu adorei a foto que voce tirou eu te amo muito mesmo e tambem gostei muito da historia do jacare foi engraçada adoro visitar seu blog. Com carinho Bebel. te adoro tio Lu…

  14. Diógenes B. Cardoso – Luciano, pela sua narrativa sobre esta foto do jacaré aquele ditado “Quem espera sempre alcança” explica tudo!tanto no seu caso, como no ponto de vista do jacaré, pois nesta imagem ele colaborou bastante (de pé, apoiado nos galhos e boca aberta),demonstrando assim que sabia com quem estava tratando, ou seja, não é todo dia que tem oportunidade de “posar” para um fotógrafo amante da natureza! Parabéns e um grande abraço do Diógenes.

  15. Diógenes Borges Cardoso – Luciano, pela sua narrativa sobre esta foto aquele ditado “Quem espera sempre alcança” explica tudo!Tanto se considerarmos sob o seu ponto de vista com também no caso do jacaré, pois nesta imagem (de pé, apoiado nos galhos e boca aberta)ele colaborou bastante, demonstrando assim que sabia com quem estava tratando, ou seja, não é todo dia, digo noite, que tem oportunidade de “posar” para um fotográfo tão persistente e competente. Um grande abraço, Diógenes.

  16. Daniela – Luciano, tive o prazer de conhecer um de seus livros sobre o Atol das Rocas e simplesmente virei fã de seu trabalho. Mas hoje, lendo seu texto, descobri que além de um excelente fotógrafo, você também é um excelente roteirista! Durante a leitura, as imagens descritas foram ficando tão vívidas e encadeadas que viraram um filme em minha mente. Adorei assistir! Um abraço para todos da sua família!

  17. Neiva Guedes – Luciano, ter o prazer de se deiletar com suas fotos e textos com mais frequência, é um privilégio. Sou fã de carteira do seu trabalho e da divulgação da conservação da natureza que você faz. Parabéns!!!

  18. WBIGO jr – Grande Candisani MEU PROFESSOR DE CAÇA-SUB DELMAR CORRÊA NAS PALESTRAS SEMPRE DIZÍA QUE QDO INVADIMOS UM MUDO Q NÃO NOS PERTENCE O MEDO FAZ PARTE DA SOBREVIVÊNCIA,PASSEI MUITOS APUROS EM ALTO MAR MAS SEMPRE ESTAVA ARMADO DE ARPÃO E A PROCURA DE ALGUM GRANDE PEIXE,ISSO À UNS 22 ANOS ,AGORA DAR DE CARA COM UM JACARÉ EM UM RIO E REALIZAR ESSA FOTO ESPETACULAR BROTHER PRECISA AGRADECER MUITO PELA OPORTUNIDADE,TALENTO PQ PARECE Q O JACARÉ ESTAVA POSANDO P/ VC E MUITA FRIEZA TB,POIS COM PREDADOR MORTAL DESSES NÃO SE BRINCA !ABS,WALDIR BIGO Jr

  19. Nathan – Como muitos ja disseram…Meus parabens otima foto.Realmente dependendo do lugar e o animal ou evento que se procura não é facil e nem rapido, parabens pelo sucesso !Até mais!

  20. Magaly Lima – Luciano tive curiosidade de conhecer seu trabalho quando o vi ilustrando parte da exposição “Fotografia em Revista”. Fiquei maravilhada com a forma como capta as imagens, não tenho dúvidas que seu trabalho requer sempre muita paciência e sensibilidade. Serei agora, visitante assídua do seu blog!Parabéns, espero que vc continue nos prestigiando com esses incríveis fragmentos da realidade artística.

  21. Luciano Candisani – Olá, Magaly, muito obrigado pelo comentário. Ó timo saber que você visitou a exposição e gostou das minhas fotografias. Suas visitas serão muito bem-vindas. Saudações, Luciano

  22. Jessica – Ola Luciano Candisani,adorei esta sua historiaSe fosse possivel gostaria que respondesse umas perguntas(São para um trabalho de escola) : 1-quais foram suas melhores aventuras nesta profissao?2-Ouve algum fato em que vc correu perigo,ou que lhe marcou muito por ser algo terrivel?Se sim qual?Gostaria que respondesse-as gosto muito do seu trabalho e por isso escolhe fazer o meu trabalhor escolar sober vc!!!Agradeço a compreeçao!!

  23. Uma foto fantástica e um texto incrível. Além de grande fotógrafo, vc nos dá a possibilidade de viver o seu momento sem estar embaixo d’água. Agradeço muito o que venho aprendendo com vc desde Madagascar.

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