Muriqui, cinco anos depois

   

 

Algum dia de maio de 2003, o último de uma viagem cansativa. Eu havia passado a semana toda seguindo diariamente, das 5h às 17h, um grupo de muriquis na floresta atlântica de 900 hectares, protegidos na RPPN Feliciano Miguel Abdala, em Caratinga, com o objetivo de fotografar o inusitado repertório de comportamentos da espécie para a National Geographic. O tempo estava nublado, caía  uma garoa fina, intermitente. Por volta do meio dia, os macacos tomaram o caminho de um morro íngrime e eu comecei a guardar o equipamento para iniciar a longa caminhada de volta à base – já não aguentava mais andar com a mochila nas costas.

Com um metro e meio de comprimento, o muriqui é o maior macaco das américas. O porte impressiona, mas estão nas relações sociais as maiores peculiaridades desse primata.  O que mais surpreende é a total ausência de agressividade e dominância entre indivíduos de um mesmo grupo, traços comuns a quase todas os outros macacos sociais, como os chipanzés. Entre os muriquis, machos e fêmeas adultos tem o mesmo tamanho e raramente brigam ou apresentam comportamento agressivo. Pelo modo de vida “paz e amor” os muriquis ganharam o apelido de “Macacos Hippies”.

Já havia desmontado o tripé quando meu guia, o Jairo, experiente conhecedor da área, falou sobre uma trilha de acesso para o alto daquele morro vertical. “Correndo, podemos, talvez, ficar no mesmo nível das copas das árvores altas por onde os muriquis devem passar.” Disse ele. “Será?”, pensei.  Resolvi arriscar , reuni as últimas energias e fui, de tombo em tombo, avançando para o topo do morro. Lá em cima, quase não acreditei quando uma fêmea, com seu pequeno filhote nas costas, passou bem na minha frente, equilibrando-se entre dois cipós; a mata toda sob nós. No meio da travessia, ela parou por um instante. Ergui a câmera com os braços ainda trêmulos pelo esforço da escalada e fiz a foto.

A imagem sintetiza o drama dos muriquis. Endêmicos da Mata Atlântica, eles estão entre os 25 primatas mais ameaçados do mundo. A fêmea, uma sobrevivente na corda bamba da história, carregava a esperança de continuidade da espécie.

A foto abre a matéria de 12 páginas, A jornada de paz e amor dos macacos hippies, publicada na edição de dezembro de 2003  de National Geographic Brasil, e pode ser vista clicando aqui

Semana passada, depois de 5 anos, voltei a andar com os Muriquis. Num trecho da caminhada, os animais pararam para descansar, quase todos do grupo amontoados na mesma árvore. Num galho longo, dois jovens macacos chamavam a atenção com suas brincadeiras.

“Está vendo aquela ali brincando, a da esquerda”, indicaram as pesquisadoras Alba Coli e Mariane Kaizer. “É a Neo.” O filhote que está nas costas da mãe, na sua foto publicada na National Geographic.

Neo e os demais filhotes de sua geração vivem em paz na reserva, indiferentes ao maior desafio para a perpetuação de sua espécie: o remanescente florestal em que vivem se encontra isolado no meio de pastagens e lavouras e precisa ser conectado a outros fragmentos de mata da região através de corredores de reflorestamento, pois não terá capacidade de sustentar um crescente número de Muriquis por muito mais tempo.


 

Sempre que falo dos muriquis da RPPN Feliciano Miguel Abdala lembro do belo trabalho que Eduardo Marcelino Veado e sua esposa Simone Furtini Abras  fizeram pela conservação da espécie. Eles infelizmente partiram, mas o seu legado conservacionista se renova com cada filhote de muriqui nascido nas florestas de Caratinga.

Foi uma honra tê-los conhecido pessoalmente.

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